domingo, 6 de abril de 2008

Manchetes de Todo Dia, ou Uma Saída à Mineira

Quinta à noite. Depois de uma cansativa aula de francês, um bate-papo se seguia na cantina da Faculdade de Educação (FaE) entre eu e meus dois amigos. Sem mais nem menos, aparece um helicóptero com holofotes alucinadamente brilhantes, como à procura de algum criminoso, fugitivo, pensei. O vigilante-porteiro ao ser indagado por mim disse que era um aparato para conter uma manifestação do IGC a favor da maconha. Uau, teria tal manifestação tomado tamanhas proporções?

"Agora a noite no campus da UFMG no Instituto de Geociências (IGC) alunos e professores foram espancados pela policia. Tudo começou porque alunos do IGC resolveram passar um filme-documentá rio sobre a liberalização da maconha (filme da revista Superinteressante, vendido em bancas de jornais) e a direção do IGC proibiu a exibição do filme. Os alunos resolveram passar o filme assim mesmo já que nada justificava a proibição de um filme vendido em bancas de jornal parece que a direção do IGC solicitou a reitoria que tomasse providencias e a reitoria chamou a polícia.
A policia cercou o IGC e depois de muita confusão com carros, camburões, policiais revistando carros na rua lateral ao IGC, helicópteros de policia com holofotes sobre o prédio e coisas assim, houve enfrentamento da policia com os estudantes e agora temos estudantes na policia federal e outros fazendo exames de corpo delito. Um professor do IGC tentou mediar a situação e tambem foi espancado pela policia.
Nunca fatos como estes foram presenciados em uma universidade como a nossa.
Nunca, nem na ditadura militar, filmes foram proibidos e a policia foi acionada desta maneira para bater em estudantes e professores
Nós, que estávamos no campus quando isso aconteceu resolvemos acionar a comunidade academica da UFMG para que talvez alguem possa nos ajudar a entender quando foi que a universidade perdeu totalmente o senso de medida e o sentido do que é um espaço publico de educação."

Noutro jornaleco mineiro, o A Tarde, um dos poucos meios de comunicação que deu alguma atenção ao caso ocorrido dentro da minha universidade, a UFMG, saiu a seguinte reportagem:

"Um estudante foi preso e outros dois ficaram feridos na noite de ontem durante um debate sobre legalização da maconha no Instituto de Geociências (IGC), no campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Conforme relatos, um tumulto se formou quando seguranças da universidade intervieram para impedir a exibição do documentário "Grass Maconha". A reitoria alegou que a exibição não havia sido autorizada pela diretoria do IGC.

Cerca de 50 alunos do curso participavam do "filme-debate". Os estudantes não teriam permitido a retirada do filme e teve início a confusão. A Polícia Militar foi chamada e os policiais impediram que os universitários deixassem a arena do IGC. Um aluno do 1º período - cujo nome não foi divulgado - tentou deixar o local e foi algemado, sendo preso sob a alegação de desacato à autoridade.

Estudantes tentaram impedir que os policiais deixassem o local com o detido. Alguns sentaram na frente da viatura e foi iniciado o confronto. Um aluno e uma universitária sofreram ferimentos leves e foram atendidos no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII. O estudante preso foi levado para o Juizado Especial Criminal e Cível de Trânsito. Ele foi liberado no final da noite.

Num comunicado, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) afirmou que "uma sessão de cinema foi impedida a cacetadas pela" PM, que foi "convocada e autorizada a agir pela Reitoria". O DCE solicitou retratação pública por parte da Reitoria e a abertura de um inquérito administrativo para punição dos responsáveis pela entrada da PM no campus.

Repúdio

Em nota assinada pela a vice-reitora e reitora em exercício da UFMG, Heloísa Starling, a Reitoria da universidade lamentou os fatos, "inteiramente estranhos à civilidade que caracteriza o ambiente acadêmico". A nota afirma que a instituição "repudia qualquer ação de violência praticada; informa que não autorizou nem a presença nem a ação da Polícia Militar e esclarece que serão tomadas providências para apuração dos fatos e das responsabilidades".

No comunicado, a reitora em exercício afirma que o reforço da segurança foi solicitado para garantir o cumprimento da deliberação da diretoria do IGC. Afirmou que depois ficou sabendo que a decisão não havia sido respeitada e ocorria um tumulto na unidade acadêmica, com a intervenção da PM. Disse ainda que entrou em contato com o Comando da PM para esclarecer o ocorrido e solicitou que o procurador-geral da universidade acompanhasse o registro policial do estudante detido. Um assessor da Reitoria acompanhou o atendimento dos estudantes feridos."

O mesmo assunto, de tamanha gravidade, recebeu - na sexta-feira, dia 04 - por parte do jornal Estado de Minas uma notinha de rodapé:

"Estudantes agredidos durante debate na UFMG

Pelo menos uma estudante universitária ficou ferida e outro foi detido, na quinta-feira à noite, durante um debate no Instituto de Geociências, no câmpus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O evento, organizado por alunos da escola, discutia a legalização da maconha, com base na exibição de um filme sobre o assunto.

Pelas informações iniciais, policiais militares entraram no câmpus, cercaram o prédio, no qual estariam cerca de 200 alunos, alguns em aula, gerando clima de tensão. A estudante que teria sido atingida sofreu ferimento na cabeça e foi socorrida no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII."

Há o vídeo [acima, no YouTube], mostrando o momento da prisão do estudante. Além do autoritarismo, reinante em nossas instituições de - pasmem! - educação, há ainda uma polícia que pensa estar no Mineirão [estádio de futebol], onde eles cometem barbaridades e nada lhes é imputado como responsabilidade, pois gozam de repaldo legal para agredir moralmente e fisicamente os torcedores, meramente por estar diante de uma multidão, vigendo a lógica do "se alguém morrer, ninguém sabe quem foi!" Os comentários que se seguem ao vídeo, logo abaixo dele, não são melhores. Mostram como alguns estudantes e a comunidade belohorizontina em geral desvalorizam os direitos garantidos pela Constituição da República e pelo Estado Democrático de Direito tão duramente conquistados após mais de 20 anos de chumbo grosso. Em troca de uma estigmatização política barata contra outras unidades acadêmicas [no caso o IGC, sabidamente um reduto ainda atuante da esquerda estudantil, comumente taxados de "maconheiros"]. Nada novo, porém, no horizonte. As mesmíssimas querelas se evidenciaram no conflito que ocupou a reitoria da USP ano passado: as de uma universidade dividida em classes e interesses próprios e onde os mais fortes ganham, sempre.

Novamente nos vemos reféns de uma polícia militar que defende os interesses autoritários de uma parcela da sociedade igualmente autoritária.

sábado, 5 de abril de 2008

Manchetes de cada dia


Nunca entendi bem o que certas manchetes querem dizer quando colocam a foto de uma mulher semi-nua na capa e uma chamada que nada tem que ver com a mesma.

Ou melhor, sei bem: é pra usar a imagem da mulher pra vender mais! Afinal, a fórmula que mescla a dobradinha "violência e sexo" ainda não foi superada nas vendas, não é mesmo?

terça-feira, 1 de abril de 2008

Um coice nos preços!


"Fim do horário de verão beneficiaria a produção leiteira." Certamente nossos quadrúpedes não passaram por uma fase de adaptação adequada, por conta da impaciência desses capitalistas!

A inusitada notícia dói como um coice para os produtores desse produto, indispensável para crianças e bezerros!

sábado, 29 de março de 2008

Cidade Denorex


"Seattle me recebeu querendo provar que é uma cidade de falsas impressões. Primeira impressão (aparentemente) equivocada: o tempo. Após um demolidor vôo de 26 horas, com direito a mais de uma hora de atraso na decolagem de São Paulo e perda de vôo de conexão em Nova York, o avião atravessou as grossas nuvens e estacionou num aeroporto banhado pelos raios do sol poente, sob um céu azul.

O táxi me levou ao hotel e Seattle se apresenta não como a cidade chuvosa e cinza que sempre li e esperei que fosse. É uma cidade linda, com um centro cheio de prédios modernos, galerias de arte e restaurantes finos que filtram a riqueza de empresas como Amazom.com, Starbucks e Microsoft, que têm nesta cidade e região seus quartéis-generais.

Segunda impressão (aparentemente) equivocada: a população. Estatísticas mostram que a população latina do condado onde fica Seattle quase triplicou nos últimos 15 anos. Eu esperava sim, ver hispânicos logo de cara - ouvir o espanhol que me recebeu em cada canto de cada cidade americana que visitei até então.

Nada disso. Entre os passageiros que desembarcaram comigo, no aeroporto, nas ruas - não vi sequer uma pessoa que parecia ser latina. Vi muitas loiras magrinhas, barbudos ruivos e asiáticos de olhos puxados. Ah, e meu taxista, que era indiano. "Sim, aumentou o número de hispânicos nos últimos anos. Você vai encontrá-los mais no interior", disse ele.

Me sinto estranho com essa ausência. Vivi em Miami um ano, em 2004. Miami não é bem uma cidade americana, eu sei, é uma cidade em que a maior parte da população fala espanhol e inglês e até mistura as línguas no dia a dia.

Até hoje, para mim, Miami é minha casa "nos states". Estou "nos states", mas não sinto que estou. Aqui, sinceramente, parece que saber chinês é mais útil.

Encontro com meus colegas de viagem. José e Carlos estão fazendo seus últimos preparativos. Com eles vou andar quase 6 mil quilômetros atrás dos hispânicos (e brasileiros) perdidos nesse mundaréu gringo.

Eles garantem que, pelo menos em relação ao povo de Seattle, minhas primeiras impressões estão equivocadas e que o mundo latino também tem seu braço na cidade mais populosa do Estado de Washington. Logo pela manhã, prometem me provar isso. Cético, digo boa noite e vou para meu quarto.

Quanto ao tempo... ligo a tevê rapidamente para pegar no sono. A meteorologia prevê um cinza melancólico para esta sexta-feira. E chuva misturada com neve. Será que o sol do fim do dia foi só para me contrariar?"


quarta-feira, 26 de março de 2008

O dalai-lama na mira de Pequim - Estadão

O dalai-lama na mira de Pequim

"Os observadores internacionais não escondem a sua perplexidade com a escalada de ataques virulentos do governo chinês ao líder religioso e chefe do governo tibetano no exílio, o dalai-lama. Em meados do mês, como se recorda, protestos pacíficos de monges budistas, seguidos dos mais violentos distúrbios em quase duas décadas na região, eclodiram em Lhasa, a capital do Tibete, em 'comemoração' pelos 49 anos do fracassado levante de 1959 contra a anexação do país à China. Desde então, Pequim não cessa de apontar o septuagenário dalai-lama como o principal instigador das manifestações que teriam provocado pelo menos uma centena de mortes e um número indeterminado de pessoas feridas ou presas, além de se alastrar para as áreas da China com forte presença de tibetanos. A mais recente diatribe contra o líder pacifista, refugiado na Índia desde o levante de 1959 e agraciado com o Prêmio Nobel em 1989, saiu domingo no Diário do Povo.

O jornal oficial do Partido Comunista Chinês o acusa de conspirar 'para tornar reféns os Jogos Olímpicos de Pequim (em agosto), com a intenção de obrigar o governo a fazer concessões para a independência do Tibete'. O que deixa perplexos os diplomatas e analistas ocidentais que acompanham a crise é a irracionalidade da posição chinesa. Em primeiro lugar, os dirigentes comunistas sabem que, para decepção das entidades européias e americanas de defesa dos direitos humanos, o dalai-lama apoiou abertamente a afinal vitoriosa candidatura de Pequim a sediar a Olimpíada deste ano. E, embora tivesse classificado a repressão chinesa aos protestos como um 'genocídio cultural', em nenhum momento pediu o boicote aos Jogos. Segundo, a China tampouco ignora que, na semana passada, quando ameaçou renunciar à chefia do governo tibetano no exílio, a intenção do dalai-lama era apaziguadora. Com essa ameaça, tentava incitar seus compatriotas a dar por encerrados os protestos.

'A violência é contrária à natureza humana', pregou. A violência a que o dalai-lama se referiu foi certamente a que marcou as manifestações, dias antes, em Lhasa, quando turbas de tibetanos apedrejaram e saquearam casas comerciais pertencentes a chineses. (Esses e outros atos de vandalismo contra civis foram testemunhados por um único jornalista ocidental, o correspondente da revista Economist em Pequim, que previamente obtivera permissão para visitar o Tibete. No seu despacho, ele escreveu que 'a destruição foi sistemática'.) Em terceiro lugar, Pequim está farta de saber que o dalai-lama não aspira à 'independência' de sua terra. Em inumeráveis pronunciamentos, ele tem reivindicado para a chamada 'Região Autônoma do Tibete' uma autonomia cultural e administrativa como a de Hong Kong. Para negociar esse tipo de autonomia, enviados do 'mestre espiritual' budista se reuniram seis vezes, a contar de 2002, com representantes do governo chinês - sem qualquer resultado.

É notório que a resistência da China se explica pelo temor do contágio. No vasto território do antigo Império do Meio, os tibetanos não são o único grupo étnico a aspirar a alguma forma de autonomia. Em 2005, por exemplo, a mão pesada de Pequim se abateu sobre os militantes uigures da região predominantemente muçulmana de Xinjiang, no noroeste chinês. A Mongólia Interior é outro foco de sentimentos nacionalistas. Ainda assim, 'se a China fizesse uma análise racional de seu próprio interesse a longo prazo', argumenta o historiador Timothy Garton Ash, em artigo transcrito na edição de domingo do Estado, trilharia o caminho sugerido pelo dalai-lama: uma autonomia negociada para o Tibete, sem chegar à independência plena. Ash, que viveu na antiga República Democrática Alemã, acredita que 'a dubiedade característica dos regimes repressores' é o que explica a insensibilidade chinesa à importância do dalai-lama como protagonista de uma solução pacífica para a questão tibetana.

Para a China, o dalai-lama é 'uma relíquia feudal' - o que não impede as autoridades de Pequim de 'falar nele obsessivamente', nota o historiador. Para um observador ocidental é quase impossível compreender a incapacidade do governo chinês de entender as vantagens que lhe traria um relacionamento com o Tibete nas condições propostas pelo seu líder religioso."