sexta-feira, 22 de junho de 2007

Lamarca e as sobrevivências ditatoriais



"Lamarca - Por Mino Carta

Jornal do País não leio, revista semanal também, Jornal Nacional não assisto. Há quem me informe a respeito, a me chamar a atenção para texto ou tela escolhidos. Somente hoje li o editorial da Folha de sexta-feira passada, intitulado “O caso Lamarca”. E o editorial do Estadão de sábado, intitulado “Prêmio ao facínora desertor”. E um brevo texto da última edição de Veja, intitulado “O Bolsa-Terrorismo”.Segundo a Folha, a decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça representa um prêmio à deserção, a qual, se bem interpreto, justificaria o fuzilamento. É da percepção até do mundo mineral que Lamarca não foi desertor. Se quiserem, amotinado. A quem sustenta que a pena de morte se condiz a desertores, sugiro, em dias de lazer, a visão de um filme de Stanley Kubrick, Glória Feita de Sangue. Conta uma história de deserção da Primeira Guerra Mundial. Segundo o Estado, o propósito de Lamarca desertor, terrorista, torturador e assassino, era implantar no Brasil uma ditadura mais cruel e liberticida do que a que desabara sobre nós com o golpe de 1964. O jornal chega a evocar com simpatia adversários do regime militar que “contribuíram para o processo de redemocratização” e define como “memorável” o movimento das Diretas Já. Esquece ter implorado o golpe e condenado o movimento.A Veja atinge o paroxismo. Lamarca “foi morto em combate por militares que cumpriam o dever de detê-lo”, mas o “terrorista” é agora “transubstanciado” em mártir nacional. Papa Ratzinger gostaria deste verbo, transubstanciar. Quanto à comissão de anistia, “parece movida pela ideologia de esquerda”. Em geral, os editoriais e o artiguete de Veja evidenciam o sabujismo tradicional em relação às Forças Armadas. E algo mais. A forma e o conteúdo, o tom e a letra, mostram que o tempo não passou.Não se trata de tomar o partido da ditadura ou de Lamarca. Bastaria, quem sabe, admitir que este foi resultado daquela. E que a ditadura, a ser condenada in limine por espíritos autenticamente democráticos, foi um monstruoso passo atrás na história brasileira, pelo qual pagamos até hoje. Ocorre, porém, a julgar pelas reações da chamada grande imprensa, que os chavões oligárquicos continuam alerta. Só falta convocar a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade."

sábado, 16 de junho de 2007

Prometeu, por Goethe


Goethe escreveu um poema mui lindo sobre Prometeu.....

"Encobre o teu Céu ó Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto
Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!

(...)

Eu honrar a ti? Por quê?
Livras-te a carga do abatido?
Enxugaste por acaso a lágrima do triste?

(...)

Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo
por alguns dos meus sonhos se haverem
frustrado?
Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:
homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que forem parias,
não se renderão a ti como eu fiz"

O conhecimento, simbolizado nesse mito pelo elemento fogo, traz consigo a idéia de libertação da escuridão da escuridão da ignorância (bem platônico isso, não?), ao passo que aponta para o sofrido legado de eterna busca da verdade e permanente insatisfação humana com o que se alcança dela, numa relação de profundo amor-ódio.

Pensando nisso, talvez fosse Prometeu uma exemplar imagem do mito edipiano de que Freud tanto discorreu. Ao meu ver, exatamente por isso tal mito, genialmente resignificado, se tornou sua mais famosa metáfora das relações humanas primárias.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Memórias da Cenimar



O homem do Cenimar - por Mino Carta

Memórias dos tempos idos. Estamos em 1971, dirijo a redação de Veja e Octavio Ribeiro, o Pena Branca por obra da mecha que logo acima da testa sulca-lhe o cabelo preto, recebe de um oficial do Cenimar, no Rio de Janeiro, cópias de cartas manuscritas de Carlos Lamarca à namorada Iara Iavelberg. Lamarca já morreu, fuzilado à sombra de uma das ralas árvores da caatinga, por uma matilha de perseguires comandado por um capitão, Nilton Cerqueira, hoje general. Lamarca vinha de uma fuga de centenas de quilômetros pelo sertão e os tiros o mataram deitado e sem reação. Seu único companheiro de aventura e desgraça, o Zequinha, rememorado também pelos jornais de ontem. Não me permito a análise da personagem Lamarca, incluídos aí seus rompantes e crenças. Resta o fato de que foi assassinado friamente e de que não foi terrorista na acepção correta. De todo modo, Veja publicou as cartas, 36 anos atrás, e estampou uma na capa. Eram textos exaltados, da lavra de alguém disposto inexoravelmente a mergulhar em ilusões. A Veja naquele tempo ia às bancas na segunda-feira e, ao meio-dia, três janizaros à paisana invadiram minha salinha e me carregaram para uma C-14, o veículo preferido pelo Dói-Codi. Primeiro fui conduzido até as dependências da PF do bairro de Higienópolis, onde permaneci por umas duas horas em companhia de meliantes de medíocres calibres. Depois fui transferido para o QG do II Exército, não sem antes ouvir da boca de um censor conhecido nos tempos em que dirigia o Jornal da Tarde, sussurrada a frase no meu ouvido: “Desta vez é grave”. Fiquei em uma cela forrada de aço escovado por mais um punhado de horas, até ser levado à presença de um coronel de aspecto teutônico e de sobrenome Herar. Perguntou: “O senhor sabe porque se encontra aqui?” Respondi ignorar. Disse: “A revista que o senhor dirige publicou material subversivo”. Retruquei: “Fornecido a um repórter da sucursal carioca por um colega seu do Cenimar”. Olhou-me intrigado. Insisti, e sugeri que ligasse para o próprio. Pediu cortesmente licença e retirou-se por um tempo. Voltou e admitiu: “É verdade, o senhor pode retirar-se em liberdade”. Eram nove horas da noite e fui tomar canja no restaurante do Giovanni Bruno. Até hoje me pergunto quais foram as razões do homem do Cenimar ao entregar as cartas ao Pena Branca. De quem me lembro com saudade. Foi-se há muito tempo, era figura excelente e repórter de primeira.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Condenados à esperança?

É com grande pesar que venho a vocês reportar a última de nossa mídia conservadora (e golpista).

As Organizações Globo entraram com pelo menos dois projetos de lei na Câmara dos Deputados cujo conteúdo versa sobre a possibilidade futura de não podermos mais dispor de quaisquer outras fontes de informação que não sejam nacionais.

Se forem aprovados, para o enfraquecimento de nossa já debilitada cidadania, o acesso à informação (condição básica de nossa liberdade de opinião e manifestação) estará ainda mais ameaçado. Na prática quer dizer que sites como o da BBC Brasil (cuja matriz goza de nada menos do que um elevadíssimo status internacionalmente reconhecido por seu padrão e qualidade jornalísticos) deixarão de existir em português para o Brasil, por fazer parte do que alcunharam de "empresas de capital internacional", que figuram como alvo da eventual futura lei.

Por obra do acaso(?) neste mês saíram algumas matérias que apontam para a supremacia da internet sobre a televisão (do modo como a conhecemos hoje) num futuro bem próximo. Sabe-se que a internet em breve vai sobrepujar a audiência das telenovelas e telejornais pela tendência mais interativa e democrática. Querem [a Globo] que os donos do poder continuem a mandar nesse pedaço de latifúndio comumente chamado de Brasil.

Sim. E se conseguirem vão dar margem para que uma máxima atribuída a um certo líder cubano - cujo nome não ouso pronunciar por receio da censura - se torne cada vez mais patente. Ei-la:

"Liberdade de imprensa é um eufemismo burguês!"

Se me permitem um desabafo, estou cansado de ter de carregar esse duro fardo.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Apoio Moral


O link proveniente da Carta Maior será de alguma valia na análise do movimento estudantil, mormente o uspiano, ora 'ocupante'.

E, à propósito:


BORAT apoia a Ocupação da Reitoria! GREAT SUCCESS!!